quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A escolha certa

 
    Quando chega o fim de anocostumamos reservar um tempo para telefonar, escrever e-mais ou mesmo visitar os amigos, a fim  de desejarmos a eles felicidades, boas festas, um bom ano novo...Qual não foi a minha surpresa ao encontrar um amigo pra lá de triste, preocupado porque o que receberia de salário não daria sequer para cobrir as contas. Ele estava condenado a passar as férias trancado em casa. Meu primeiro impulso, ao ouvi-lo elencar parte delas ( mensalidade, seguro e IPVA do carro e conta altíssima de telefone) foi oferecer-lhe pelo menos uma quantia suficiente para o pagamento da primeira parcela do seguro do carro.
   Você provavelmente deve estar me achando louca ou bobinha, mas já explico o porquê do meu gesto: somos muito amigos, quase irmãos, já seguramos a barra um do outro por diversas vezes. Por isso foi difícil vê-lo trancado em casa, esperando o pagamento para colocar  gasolina no carro...
Na véspera do pagamento ele me ligou, convidando-me para irmos às compras no dia seguinte  " Mas você não me disse que está apertado?" Eu perguntei. "Estou, mas é que preciso de umas meias, cuecas..." Fui. Além das meias e das cuecas, ele comprou um presente para um amigo, colchas para a cama, toalhas de banho, sunga. Eu olhava para ele surpresa. " Minha casa está precisando..." Ele respondia ao meu olhar interrogativo.
Após as compras dele ( eu não comprei nada e ele achou que eu não estava animada) voltamos para casa, eu decidida a não renovar a oferta. Sabe por quê? Porque compreendi que meu amigo é viciado em gastar. O salário dele (tem dois empregos) nem tem tempo de esquentar a conta, só depois de comprar isso e aquilo "porque está barato, ou porque fica bem em mim ou porque estou precisando" é que ele se dá conta de que não podia ter gastado e se põe a lamentar.
Sabe o que fiz com o meu dinheiro ( o do décimo terceiro)? quitei um parcelamento de cheque especial, que me vi obrigada a utilizar quando adoeci, há um ano. Não poderei fazer a viagem que sonhara para essas férias, mas nada perdi. Após os cálculos, descobri que pagar todas as parcelas de uma só tacada me traria uma economia de oitocentos reais a longo prazo ( a última mensalidade estava prevista para setembro de 2011). Pode não ser muito dinheiro, mas é quase a mensalidade do carro do meu amigo, comprado em 60 vezes.
Não pense que sou expert em finanças. Passei muito tempo enriquecendo os bancos. Minha casa e a lavanderia eu os construí com dinheiro emprestado. Saía e se via uma blusa bonita, uma fatia de bolo ou torta holandesa não pensava duas vezes. 'Eu mereço' era o meu argumento.
Meu despertar começou assim: estava cuidando da casa e ouvindo a CBN, quando um consultor financeiro ( não me recordo o nome) disse algo sobre termos uma reserva para emergências. "Quanto tempo você sobrevive sem salário? foi mais ou menos a pergunta que me fiz e entrei em pânico. Eu não sobreviveria um mês, teria que utilizar o limite...
Então decidi que tinha que fazer alguma coisa, que havia algo errado. Passo o maior tempo da minha existência trabalhando e para quê? Para honrar compromissos. Compreendi que não se trata penas de dinheiro, trata-se de tempo e tempo é vida. Eu não quero viver só para pagar contas.
A ironia de tudo isso é que tanto eu quanto meu amigo somos professores. E teremos de ensinar às crianças e jovens como lidar com o dinheiro. Financiamentos, poupança, seguro, aposentadoria e outros farão parte do currículo a partir de 2012 ( será obrigatório). E quem me disse isso foi esse meu amigo! Eu lhe perguntei: " Como ensinar o que não se sabe?" Só para que você tenha uma ideia, a prefeitura de São Paulo restringiu os emprétimos descontados em folha de pagamento ao Banco do Brasil. Arrisco-me a dizer que pelo menos uns 40% da rede deve ter um empréstimo ao menos. 60 vezes, 48 vezes, 24 vezes... E vão refinanciando porque o gargalo aperta...
É por isso que dedicarei esse espaço para comentar as leituras que farei sobre educação financeira. Quero aprender para cuidar melhor de mim e dos que ensino. De escravos a donos do dinheiro. Não é uma excelente meta para o ano que chega?


Feliz ano financeiro pra você.

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